Merck sabia que Vioxx podia matar

O Globo, ciência, 17/04/08

Revista diz que laboratório omitiu resultados de estudos sobre riscos

         Chicago. O laboratório Merck escondeu provas de que o seu antiinflamatório Vioxx poderia ser prejudicial à saúde e poderia matar em alguns casos. Pesquisadores americanos afirmam que a empresa sabia desses problemas anos antes de decidir retirar o medicamento das farmácias, em 2004. A denúncia foi publicada na edição desta semana da "Revista da Associação Médica Americana" (Jama, na sigla em inglês)".

         Durante os cinco anos em que esteve no mercado, o Vioxx rendeu bilhões de dólares.

         No início deste ano, o Merck concordou em pagar US $ 5 bilhões em indenizações a pacientes que alegaram ter sofrido danos à saúde, como infartos e derrames, por causa do remédio.

         Análises de documentos durante o processo litigioso indicam que pesquisadores do Merck estavam cientes dos problemas com o Vioxx antes de 2004. De acordo com o artigo publicado na "Jama", a companhia omitiu que pacientes com mal de Alzheimer que usavam o medicamento com regularidade tinham o triplo de chance de morrer em comparação com o grupo que tomava placebo (substância inócua).

         - Este é um sinal importante e grave de violação de segurança - disse Bruce Psaty, da Universidade de Washington, cujo estudo comparou documentos internos do Merck com dados apresentados ao órgão americano que regula drogas e alimentos (FDA) e com pesquisas publicadas.

         Ele acrescentou que se essas conclusões tivessem sido apresentadas publicamente em abril de 2001, menos pacientes teriam optado por tomar Vioxx, e, provavelmente, menos teriam sido lesados.

         Outra análise sugere que o Merck contratou pesquisadores acadêmicos apenas para que emprestassem sua credibilidade aos estudos realizados pelo laboratório. O objetivo seria apresentar os estudos como prova de segurança e eficácia do medicamento.

         - Não acreditamos que essas acusações sejam verdadeiras - disse Kent Jarrell, um porta-voz do escritório jurídico que representa o Merck no caso Vioxx.

         A "Jama" propõe profundas mudanças para combater a influência dos laboratórios junto à pesquisa médica.

Os problemas da droga

         O Vioxx é uma droga da classe dos inibidores de COX-2 (coxibes), criados como alternativa a outros analgésicos que podem causar hemorragia gástrica.

         Os estudos que levaram ao escândalo de 2004 indicavam os perigos do uso regular e prolongado da droga, que poderia causar infarto e derrame.

         Há outros medicamentos do mesmo tipo, inclusive no Brasil, como Prexige (da Novartis), Celebra e Bextra (o dois da Pfizer). Apesar de estudos indicarem risco de danos à saúde, por enquanto, apenas o Bextra foi retirado do mercado. O Prexige foi proibido em países como EUA. Na época de retirada do Vioxx, a Câmara Técnica de Medicamentos da Anvisa fez uma série de recomendações quanto ao uso desses medicamentos.





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