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Estudos sobre Vioxx são questionados
Gazeta Mercantil, indústria, 17/04/08
O laboratório farmacêutico Merck elaborou uma série de estudos de pesquisa sobre um dos seus medicamentos que é campeão de vendas, depois chamou médicos de grande prestígio aos quais pediu que assinassem os estudos antes da publicação, afirma um artigo publicado em uma das mais importantes publicações da área de medicina. O artigo, baseado em documentos encontrados em ações judiciais sobre o analgésico Vioxx, oferece uma visão rara e detalhada da prática corrente do setor de encomendar a escritores de fachada estudos sobre pesquisa médica, então são publicados em revistas acadêmicas.
O artigo citava um estudo sobre a pesquisa do Vioxx que ainda não dispunha de um pesquisador de grande renome, identificando o escritor principal apenas como "autor externo?" O Vioxx era um dos fármacos mais vendidos antes que a Merck o retirasse do mercado, em 2004, devido a evidências que o relacionavam a ataques cardíacos. No final do ano passado, a companhia fez um acordo de US$ 4,85 bilhões com o qual solucionava dezenas de milhares de processos que lhe foram movidos por antigos pacientes que haviam tomado o medicamento ou por suas famílias.
O principal autor do artigo de ontem, o Dr. Joseph S. Ross, da Escola de Medicina Mount Sinai de Nova York, disse que um exame mais cuidadoso dos documentos da Merck suscitou graves interrogativos sobre a validade de grande parte das pesquisas publicadas pela indústria farmacêutica, porque a utilização de escritores de fachada parece bastante difundida.
"Chega a questionar toda a pesquisa legítima já realizada pelo setor farmacêutico com o médico acadêmico". disse o Dr. Ross, cujo artigo, escrito em co-autoria com outros colegas, foi publicado ontem na revista Jama (The Journal of the American Medical Association), e na terça-feira no site da revista.
A Merck admitiu na terça-feira que às vezes contrata escritores da área de medicina, de fora, para elaborarem relatórios de pesquisa antes de apresentá-los aos médicos cujos nomes aparecem na publicação. Mas a companhia discordou da conclusão do artigo de que, na realidade, os autores participam apenas em parte da pesquisa ou da análise. O trabalho final é o produto do médico e "reflete com fidelidade sua opinião", disse o advogado da Merck, James C. Fitzpatrick.
E pelo menos um dos médicos cuja pesquisa publicada foi questionada no artigo, o Dr. Steven H. Ferris, professor de psiquiatria da New York University, disse que a idéia de que o artigo que traz o seu nome seja de autoria de um escritor de fachada é "simplesmente falsa". Ele afirmou que é "fantástico" que o Dr. Ross e seus colegas não tenham feito nenhuma pesquisa além de vasculhar os documentos da Merck e de ler os artigos publicados nas revistas.
Em um editorial, a Jama disse que a análise mostrou que a Merck aparentemente manipulou dezenas de publicações para promover o Vioxx. "É evidente que pelo menos alguns dos autores pouco influíram no estudo ou na revisão, no entanto, permitiram que seus nomes aparecessem como se eles fossem os verdadeiros autores", afirmava o editorial.
O editorial solicitou aos editores da revista médica que exijam que cada autor conte suas contribuições específicas aos artigos. "Os editores das revistas especializadas também são responsáveis por permitir que as companhias manipulem as publicações", afirmou. A própria Jama publicou um dos estudos sobre o Vioxx que foi citado no artigo do Dr. Ross. Nesse caso, em 2002, o nome de um cientista da Merck foi dado como principal autor. Mas a dra. Catherine D. DeAngelis, editora do JAMA, disse em entrevista por telefone na terça-feira, que, mesmo assim, isso era desonesto, já que os autores não revelaram plenamente o papel de um ghost writer.
"Considero isso ludibriar", disse DeAngelis. "Entretanto, para mim o mais sério é permitir que uma empresa com fins lucrativos elabore uma resenha e depois peça que outra pessoa assine o trabalho final."
Apesar do papel das empresas farmacêuticas, de influenciar as publicações médicas, ter sido questionado anteriormente, os documentos da Merck fornecem o cenário mais amplo já divulgado na prática, segundo disse um dos quatro autores do estudo, dr. David S. Egilman, professor na Brown University. Nas ações legais do Vioxx, milhares de documentos da Merck foram fornecidos aos queixosos. Esses documentos chegaram às mãos de Egilman e Ross, porque ambos foram consultores de advogados dos queixosos em alguns desses processos.
Alzheimer
Pesquisando os documentos, Ross e seus colegas encontraram mensagens internas via e-mail da Merck, e documentos sobre 96 publicações médicas, que incluíam artigos revisados e reportagens de estudos clínicos. Embora a equipe de Ross tenha dito que não iria necessariamente questionar todos os 96 artigos, acrescentou que, em muitos casos, era evidente que os autores recrutados adicionavam contribuições significativas. Um dos documentos envolvia um estudo do Vioxx que dizia que o medicamento possivelmente bloqueava a progressão do mal de Alzheimer.
O documento, datado de agosto de 2003, identificava o principal escritor como um "autor externo". Mas quando a matéria foi divulgada em 2005 na publicação Neuropsychopharmacology, o principal autor surgiu como sendo o dr. Leon J. Thal, famoso pesquisador do mal de Alzheimer na Universidade da Califórnia. Thal faleceu em um acidente aéreo no ano passado. O segundo autor mencionado na publicação sobre Alzheimer, cujo nome não constava do estudo inicial, foi Ferris, o professor da Universidade de Nova York. Ferris, contatado por telefone na terça-feira, alegou ter participado ativamente da pesquisa, e ter estado muito envolvido na elaboração do estudo final."É falso dizer que não contribuímos para a publicação definitiva", enfatizou.
Um terceiro autor, também não mencionado no estudo inicial, foi o dr. Louis Kirby, diretor da empresa Provista Life Sciences. Em e-mail de terça-feira, Kirby disse que, como pesquisador clínico para o estudo, envolveu um maior número de pacientes, 109, mais do que todos os outros pesquisadores. Também informou que fez revisões para o documento final. "O fato do estudo ter sido escrito por um funcionário da Merck para discussão posterior por todos os autores não constitui por si um ato de ghostwriting", disse.
O atual editor da publicação Neuropsychopharmacology, dr. James H. Meador-Woodruff, chairman da cadeira de psiquiatria da Univerdiadde do Alabama, Birmingham, disse não ser editor em 2005, mas que pretendia investigar as acusações. "No momento, existem proibições contra isso", explicou Meador-Woodruff. |