Cresce número de nascimentos de bebês prematuros no Brasil

Estado de S. Paulo, vida&, 17/04/08

Avanço no pré-natal é uma das causas, mas aplicação de exames está abaixo do recomendado

Emilio Sant'Anna

         A cada ano, mais bebês prematuros nascem no Brasil. Em 2000, 109.210 partos até a 36ª semana (oito meses) de gestação foram feitos no País. Em 2005, segundo dados recentes do Ministério da Saúde , esse número passou para 123.569, um crescimento de 13%. Essas crianças nasceram com menos de 2,5 quilos e passaram até mais de três meses numa UTI.

         Para especialistas, o avanço da assistência pré-natal é uma das causas. Há alguns anos, essas crianças morreriam antes do parto. A falta dos mesmos exames pré-natais, no entanto, também explica esse aumento.

         Hoje, uma gestante faz em média 5,2 exames pré-natais no Brasil, abaixo das 6 consultas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde. 'Não basta fazer pré-natal. É preciso que seja bem-feito, com todos os exames básicos', diz o diretor de ações estratégicas do Ministério da Saúde , Adson França.

         O ministério não tem índices abrangentes sobre a mortalidade desses bebês, pois as certidões de óbito normalmente trazem as complicações e doenças decorrentes da prematuridade e do baixo peso como causa da morte - e não o fato de terem nascido antes dos nove meses. Os médicos, porém, falam em taxas que variam de 50% a 90%, de acordo com o tempo de gestação e peso ao nascer.

         Abaixo de 2,5 kg , o bebê é considerado de baixo peso. Com menos de 1,5 kg , passa para o nível de muito baixo peso. Abaixo de 1 kg , são os casos de muitíssimo baixo peso - que têm maior risco de complicações neurológicas e motoras.

         Os dados do ministério, apesar de pouco significativos, mostram que a mortalidade variou pouco nos últimos anos. Em 2000, 1.656 óbitos foram registrados. Cinco anos depois, eram 1.515, registro bem abaixo do esperado.

         A boa notícia é que alguns centros médicos vêm conseguindo baixar os índices de mortalidade. Em São Paulo , no Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas (HC), a taxa de sobrevivência de bebês de muitíssimo baixo peso é de cerca de 50%. Para os de muito baixo peso é de cerca de 80%.

         O neonatologista Mário Cícero Falcão, do Instituto da Criança, explica que, em gestantes adolescentes e mulheres mais velhas, a probabilidade de parto prematuro é maior. 'O útero de uma adolescente ainda não está formado para conseguir suportar os nove meses de gestação.'

Angústia

         Luca nasceu no dia 3 de março, com 31 semanas de gestação, 30 centímetros e 970 gramas , peso esperado para um feto de 28 semanas. Em pouco mais de um mês, conseguiu chegar a 1,4 kg , mas só deve sair da UTI neonatal quando chegar a 1,8 kg , o que pode demorar mais de um mês.

         Sua mãe, Silvana Porto Benício, personal trainer, de 33 anos, fez todos os pré-natais e vinha tendo uma gravidez tranqüila. Em março, porém, o último pré-natal detectou que Luca não estava mais sendo nutrido através da placenta e já não se mexia mais. No mesmo dia, Silvana foi internada para fazer a cesariana.

         Há mais de um mês, Silvana passa os dias na UTI. No dia em que o Estado visitou o hospital, ela estava angustiada. Após alguns dias sem ganhar peso, Luca não havia acordado para mamar. 'Quando chego em casa , todos os dias, começo a chorar. É desesperador.'

         Infecções, diabete e hipertensão também podem causar o parto prematuro. Na Maternidade Municipal de Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, 837 bebês com menos de 2,5 kg nasceram em 2007. A maternidade, referência para gestações de alto risco, também registrou em média o nascimento de uma criança com menos de 1,5 kg a cada dois dias. 'Isso é resultado das doenças das gestantes e, muitas vezes, de assistência pré-natal deficiente', diz a diretora clínica do hospital, Miriam Faria.

         A maternidade conseguiu baixar os índices de mortalidade de 29,6 por mil nascidos vivos, em 1997, para 13,3, em 2007. Hoje, a mortalidade de bebês com menos de 750 gramas é de 60%. Para os menores de 1 kg é de 40%. Segundo Miriam, isso é resultado de treinamento e adoção de protocolos únicos para todo o corpo clínico.

         Segundo a coordenadora da área técnica de saúde da criança e do adolescente da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, Clea Leone, o aumento da prematuridade é fenômeno mundial, resultado da melhoria no pré-natal e da fertilização assistida, que costuma resultar na gestação de gêmeos.

         Em São Paulo , a mortalidade neonatal caiu de 9,78 por mil nascidos vivos, em 2001, para 8,3, em 2006. Naquele ano, o índice de prematuros com menos de 2,5 kg foi de 9,5% e, com menos de 1,5 kg , de 1,5%. 'Hoje, a grande questão é a qualidade de vida que essas crianças vão ter no futuro', diz Clea.

Sobrevivência também aumentou

Emilio Sant'Anna

         As chances de sobrevivência de bebês prematuros com baixo peso cresceu nos últimos anos acompanhando o avanço das técnicas pré-natais e perinatais. Segundo a neonatologista do Hospital e Maternidade São Luiz , Míriam Rika, uma gestação de 23 semanas é o limite mínimo com que os médicos trabalham para salvar um recém-nascido prematuro com muitíssimo baixo peso.

         Míriam afirma que, no passado, a vida desses bebês estaria condenada. 'Até há algum tempo, a taxa de mortalidade de bebês com menos de 27 semanas era de praticamente 100%', diz.

         O uso de corticóides durante a gravidez e de surfactantes (espécie de detergente natural que permite a abertura dos alvéolos pulmonares, evitando a falta de ar) após o parto possibilitam que o bebê sinta menos os efeitos da síndrome da angústia respiratória, comum em prematuros. 'Os sistemas de ventilação mecânica também melhoraram muito', explica Miriam.





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